Formamos um país que lê pouco. Isso é fato. É estatística. Dias atrás li uma matéria no jornal O Informativo, onde era relatada uma iniciativa da Unimed Lajeado de deixar 150 livros (se não me engano é esse o número) “perdidos” em vários locais da cidade, com uma mensagem tal como “Oi, sou um presente para você. Obrigado por me levar para sua casa”. Louvável iniciativa. No entanto, alguns dias após, fui à Feira do Livro, também em Lajeado, em pleno sábado à tarde, e lá estavam pouco mais que três dezenas de pessoas, onde eu esperava ver centenas. Pouquíssimo. Triste.
A leitura, mais que qualquer outra atividade, desperta a imaginação, e, acima de tudo, o senso crítico. Sem contar o fato de ser a leitura o único meio de se aprender a escrever corretamente. Lendo jornais, principalmente os regionais e locais, tais como os da minha cidade, faço a triste constatação de que, infelizmente, todas as estatísticas alertando para o fato de o brasileiro não ser um leitor assíduo são verídicas, reais, praticamente palpáveis. Erros primários de português, textos estruturados tais como redações de quarta série do ensino fundamental e sem a mínima concordância verbal são o que há de mais comum. Consequência de estudantes que quase nada leram durante seu processo de alfabetização.
Tempos atrás, quando ainda morava em Garibaldi, chamou-me a atenção o título de uma matéria em um dos jornais locais, dizendo que Garibaldi possuía 1,6 veículos por habitante. Mesmo tratando-se de umas regiões mais ricas do país, pareceu-me ser improvável a veracidade desse número. Ao ler a matéria, constatei que se tratava de algo como 30.000 habitantes e 18.000 carros, ou seja, cerca de 0,6 veículos por habitante. Mas a conta feita ao contrário, usando os fatores trocados, chegava ao número absurdo do título.
Na empresa onde trabalhei até poucos dias, há regularmente a circulação de um e-mail de comunicação interna, dando conta do que ocorre na companhia. Por duas vezes na mesma semana, li que iniciativas de determinadas áreas estavam indo “de encontro” a determinada necessidade. Na segunda vez, senti-me obrigado a enviar um e-mail à pessoa responsável explicando as diferenças entre “de encontro” e “ao encontro”.
Claro que eu cometo meus erros, principalmente no meu português falado. É cultural “comermos” os erres e os esses ao final das palavras. Ninguém é perfeito e nem tem a obrigação de ser. Mas de pessoas que se dispõe a escrever algo para que os outros leiam, presume-se que o mínimo exigido seja um bom português. Aqui nesse humilde blog já cometi erros os quais corrigi depois, ao constatá-los, o que obviamente não se faz possível em um veículo de comunicação impresso.
Mas voltando das voltas, redundantemente mesmo, e retomando o foco inicial do tema que me propus a compartilhar com vocês, centrado no fato de nós, brasileiros, lermos pouco, temos o fato de que a leitura desperta o senso crítico, a imaginação, aguça a curiosidade, melhora o raciocínio. Europeus leem muito. Americanos, japoneses e coreanos idem. É essa a explicação para a diferença social e econômica do nosso país comparada como os países deles ? Certamente não é a única, mas parte da diferença passa por aí. Alguém poderá dizer que a Europa e Estados Unidos estão em crise e o Brasil em crescimento. Sim, é verdade, mas isso é muito mais devido a fatores tais como envelhecimento de populações, saturação de modelos econômicos e à nossa forma de crescimento, em que se analisarmos a origem de determinados números, ao invés de orgulhosos, ficaremos sim preocupados.
Chineses e indianos leem. E muito. São os dois países que mais formam engenheiros, profissionais fundamentais no crescimento de qualquer nação. Ler leva ao interesse pelas inumeráveis áreas de estudo. Dá-nos consciência, sobretudo política. Adquiri esse hábito vendo meu saudoso pai, homem a quem a vida oportunizou somente o estudo até a quinta serie primária, mas extremamente culto. Agricultor em Roca Sales com gosto por música clássica. Homem que passou praticamente toda sua vida na nossa pequena cidade, mas apto a tratar de qualquer assunto, porque lia muito. Homem que, na minha infância, nunca deixou de presentear-me com um gibi, mesmo quando a situação financeira estivesse longe de ser minimamente confortável, dizendo que o que quer que eu fosse ler, despertaria meu gosto por estudar. Homem esse que morreu pobre financeiramente, mas rico de alma. Que me ensinou a ser correto, que temos que ter ideais. E a lutar por eles.
Com isso percebi que não posso votar em Sarneys e Tiriricas. Lendo muito, tive certeza disso. Lendo mais, aprendi a ter propósitos. E percebi que há situações que podem ser melhoradas com boa vontade e cooperação. Palavra essa cujo significado poderia mudar o mundo.